O mundo está melhor ou pior... A ideia de Progresso como fio condutor da História?



odos os tempos". (Risos) Até que 2017 reivindicou esse título 



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(Risos) 



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e deixou muitas pessoas saudosas de décadas passadas, quando o mundo parecia mais seguro, mais limpo e mais justo. 



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Será que essa é uma maneira sensata de entender a condição humana no século 21? Como Franklin Pierce Adams ressaltou: "Nada é mais responsável pelos bons e velhos tempos do que uma memória ruim". 



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Você sempre pode enganar a si mesmo e ver um declínio se comparar as manchetes sangrentas dos dias atuais com as lembranças cor-de-rosa do passado. Qual o aspecto da trajetória do mundo quando medimos o bem-estar ao longo do tempo usando um parâmetro constante? 



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Vamos comparar os dados mais atuais com as mesmas medidas de 30 anos atrás. No último ano, os norte-americanos mataram a uma taxa de 5,3 por 100 mil, 7% de seus cidadãos estavam na pobreza e emitiram 21 milhões de toneladas de material particulado e 4 milhões de toneladas de dióxido de enxofre. Mas 30 anos atrás a taxa de homicídio era de 8,5 por 100 mil, a taxa de pobreza era de 12% e emitimos 35 milhões de toneladas de material particulado e 20 milhões de toneladas de dióxido de enxofre. 



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E o mundo como um todo? No ano passado, havia 12 guerras em andamento 60 autocracias, 10% da população mundial em extrema pobreza e mais de 10 mil armas nucleares. Mas 30 anos atrás havia 23 guerras, 85 autocracias, 37% da população mundial em extrema pobreza e mais de 60 mil armas nucleares. Verdade, no último ano houve uma terrível guerra terrorista na Europa Ocidental, com 238 mortes, mas 1988 foi pior, com 440 mortes. 



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O que está acontecendo? Será que 1988 foi um ano especialmente ruim? Ou essas melhorias são um indício de que o mundo, com todos seus problemas, melhora ao longo do tempo? Podemos mesmo invocar uma noção reconhecidamente antiquada de progresso? Fazer isso é expor-se a uma certa zombaria, porque descobri que os intelectuais odeiam o progresso. 



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(Aplausos) 



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E intelectuais que se dizem progressistas realmente odeiam o progresso. 



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Não é que eles odeiem os frutos do progresso. A maioria dos acadêmicos e especialistas prefere fazer uma cirurgia com anestesia do que sem. É a ideia do progresso que incomoda essa minoria ruidosa. Alguém me disse que, se você acredita que os humanos podem melhorar seu destino, isso significa que tem uma fé cega e uma crença quase religiosa na obsoleta superstição e na falsa promessa do mito da marcha em andamento do progresso inexorável. Você é um líder de torcida da mania norte-americana de acreditar que pode, com o entusiasmo colegial da ideologia da sala da diretoria, do Vale do Silício e da Câmara de Comércio. Você é um praticante da História "Whig", um otimista ingênuo, uma Poliana, e, claro, um Pangloss, uma alusão ao personagem de Voltaire que declarou: "Tudo é pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis". 



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Bem, o professor Pangloss era um pessimista. O verdadeiro otimista acredita em mundos muito melhores do que o que vivemos. Mas tudo isso é irrelevante, pois o fato de o progresso ter ou não ocorrido não é uma questão de fé ou de ter um temperamento otimista ou de ver o copo meio cheio. É uma hipótese que pode ser testada. Apesar de todas as diferenças, as pessoas concordam amplamente sobre o que constitui o bem-estar humano: vida, saúde, sustento, prosperidade, paz, liberdade, segurança, conhecimento, lazer, felicidade. Tudo isso pode ser medido. Se melhorarem com o tempo, eu reconheço, isso é progresso. 



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Vamos aos dados, começando pelo mais precioso de todos, a vida. Na maior parte da história humana, a expectativa de vida ao nascer era em torno de 30 anos. Hoje, no mundo todo, é acima de 70, e, em lugares desenvolvidos, acima de 80. Há 250 anos, nos países mais ricos do mundo, um terço das crianças morria antes dos cinco anos, antes do risco reduzir em 100 vezes. Hoje, esse destino atinge menos de 6% das crianças nos países mais pobres do mundo. A fome é um dos Cavaleiros do Apocalipse. Ela pode devastar qualquer parte do mundo. Hoje, a fome foi banida para as regiões mais remotas e assoladas pela guerra. Há 200 anos, 90% da população mundial subsistia em extrema pobreza. Hoje, isso ocorre com menos de 10% das pessoas. Na maior parte da história humana, os Estados e Impérios poderosos estavam quase sempre em guerra uns com os outros, e a paz era um mero interlúdio entre as guerras. Hoje eles nunca estão em guerra entre si. A última guerra entre grandes potências colocou os EUA contra a China há 65 anos. Recentemente, guerras de todos os tipos se tornaram menores e menos mortais. A taxa anual de guerras caiu de em torno de 22 por 100 mil ao ano, no início da década de 50, para 1,2 hoje. A democracia sofreu retrocessos evidentes na Venezuela, Rússia e Turquia e está ameaçada pelo crescimento do populismo autoritário na Europa Oriental e nos Estados Unidos. Ainda assim, o mundo nunca foi tão democrático quanto na década passada, com dois terços da população mundial vivendo em democracias. As taxas de homicídio despencam sempre que a anarquia e o código de vingança dão lugar ao estado de direito. Isso aconteceu quando a Europa ficou sob controle de reinos centralizados, de forma que hoje um europeu ocidental tem 1/35 de chances de ser morto comparado a seus ancestrais medievais. Isso aconteceu de novo na Nova Inglaterra colonial, no oeste selvagem norte-americano, quando os xerifes se mudaram para a cidade, e no México. 



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Sem dúvida, estamos mais seguros em todos os aspectos. Ao longo do século passado, passamos a ter 96% menos chances de morrer em um acidente de carro, 88% menos chances de ser atropelados na calçada, 99% menos chances de morrer em um acidente de avião, 95% menos chances de morrer no trabalho, 89% menos chances de morrer por um desígnio de Deus, como uma seca, enchente, incêndio, tempestade, vulcão, deslizamento de terra, terremoto ou atingidos por um meteoro, possivelmente não porque Deus esteja menos brabo conosco, mas devido às melhorias na resiliência de nossa infraestrutura. E quanto ao mais puro desígnio de Deus, o projétil arremessado pelo próprio Zeus? Sim, temos 97% menos chances de sermos atingidos por um raio. (Risos) 



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Antes do século 17, menos de 15% dos europeus sabiam ler ou escrever. A Europa e os Estados Unidos atingiram a alfabetização universal na metade do século 20, e o resto do mundo está chegando lá. Hoje, mais de 90% da população mundial abaixo dos 25 anos sabe ler e escrever. No século 19, os ocidentais trabalhavam mais de 60 horas por semana. Hoje, trabalham menos de 40. Graças à disseminação universal da água corrente e da eletricidade no mundo desenvolvido e da adoção extensa de lava-roupas, aspiradores de pó, geladeiras, lava-louças, fogões e microondas, a quantidade de vida desperdiçada no trabalho doméstico caiu de 60 horas por semana para menos de 15 horas por semana. 



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Todo esse ganho em saúde, riqueza, segurança, conhecimento e lazer nos traz mais felicidade? A resposta é sim. Em 86% dos países, a felicidade aumentou nas últimas décadas. 



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Bem, espero tê-los convencido de que o progresso não é uma questão de fé ou otimismo, mas é um fato na história humana, sem dúvida um fato grandioso na história humana. E como esse fato tem sido apresentado nas notícias? 



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Uma tabulação das palavras de emoções positivas e negativas nas reportagens mostra que, durante as décadas em que a humanidade se tornou mais saudável, mais rica, sábia, segura e feliz, o "The New York Times" se tornou cada vez mais taciturno e os noticiários mundiais também se tornaram cada vez mais melancólicos. 



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Por que as pessoas não apreciam o progresso? Parte da resposta vem de nossa psicologia cognitiva. Nós estimamos os riscos usando um atalho mental chamado "heurística de disponibilidade". Quanto mais fácil for encontrar algo na memória, mais provável julgamos que seja. A outra parte da resposta vem da natureza do jornalismo, capturada na manchete sarcástica do jornal "The Onion": "CNN faz reunião matinal para decidir o que os espectadores devem temer pelo resto do dia". 



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(Aplausos) 



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As notícias são sobre coisas que acontecem, não sobre coisas que não acontecem. Nunca vemos um jornalista dizer: "Estou transmitindo ao vivo de um país que está em paz há 40 anos", ou uma cidade que não sofreu ataque terrorista. Além disso, coisas ruins podem ocorrer rapidamente, mas coisas boas não são construídas em um dia. Os jornais podiam ter exposto a manchete "Ontem, 137 mil pessoas saíram da extrema pobreza" todos os dias pelos últimos 25 anos. Isso representa 1,25 bilhão de pessoas deixando a pobreza para trás, mas nunca lemos sobre isso. Além disso, as notícias capitalizam nosso interesse mórbido no que pode dar errado, por meio da política de programação "se tem sangue, tem audiência". Bem, se combinarmos nossas tendências cognitivas com a natureza das notícias, podemos ver por que, há muito tempo, o mundo está chegando ao fim. 



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Vou abordar algumas questões sobre progresso que, sem dúvida ocorreram com a maioria de vocês. Primeiro, não é bom ser pessimista para se garantir contra a complacência, expor os escândalos, falar a verdade ao poder? Bem, não exatamente. É bom ser exato. Claro, temos que ter ciência do sofrimento e do perigo onde quer que ocorram, mas também temos que ter consciência do quanto podem ser reduzidos, porque há perigos no pessimismo indiscriminado. Um deles é o fatalismo. Se todos os nossos esforços para melhorar o mundo têm sido em vão, por que jogar mais dinheiro fora? Os pobres sempre estarão por aí. E já que o mundo logo vai acabar, pois se a mudança climática não nos matar a inteligência artificial descontrolada matará, a resposta natural é aproveitar a vida enquanto podemos: "Comamos, bebamos e sejamos felizes, porque amanhã morreremos". 



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O radicalismo é outro perigo do pessimismo impensado. Se nossas instituições estão falindo e sem esperança de reformas, uma resposta natural é detonar a máquina, drenar o pântano, incendiar o império na esperança de que qualquer coisa que surja das cinzas seja melhor do que o que temos agora. 



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Bem, se existe isso que chamamos de progresso, o que leva a ele? O progresso não é uma força ou dialética mística que nos eleva. Não é um arco misterioso da história pendendo para a justiça. É o resultado de esforços humanos governados por uma ideia; uma ideia que associamos ao Iluminismo do século 18 de que, se aplicarmos a razão e a ciência que melhoram o bem-estar do ser humano, podemos obter êxito gradualmente. O progresso é inevitável? Claro que não. O fato de haver progresso não significa que tudo fica melhor para todos, o tempo todo. Isso seria um milagre, e o progresso não é um milagre, é a resolução de problemas. Os problemas são inevitáveis e as soluções criam novos problemas que por sua vez precisam ser resolvidos. Os problemas não resolvidos que enfrentamos hoje são gigantescos, incluindo o risco das mudanças climáticas e da guerra nuclear, mas precisamos vê-los como problemas a serem resolvidos, não como apocalipses à espreita, e perseguir arduamente soluções, como a Descarbonização Profunda para as mudanças climáticas e o movimento Global Zero para a guerra nuclear. 



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Por fim, o Iluminismo vai contra a natureza humana? Essa é uma questão profunda para mim, porque sou um conhecido defensor da existência da natureza humana, com todos seus defeitos e perversidades. No meu livro "Tábula Rasa", argumento que a perspectiva humana é mais trágica do que utópica e que não somos poeira cósmica, não somos feitos de ouro, e não há um caminho de volta ao paraíso. 



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(Risos) 



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Mas minha visão de mundo se iluminou nos 15 anos após a publicação de "Tábula Rasa". Meu conhecimento sobre as estatísticas do progresso humano, começando pela violência, mas agora abrangendo todos os aspectos do nosso bem-estar, fortaleceu minha crença de que, entendendo nossos tormentos e infortúnios, a natureza humana é o problema, mas a natureza humana, canalizada pelas normas e instituições do Iluminismo, também é a solução. 



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Reconheço que não é fácil replicar minha própria epifania causada pelos dados para toda a humanidade. Alguns intelectuais responderam com fúria ao meu livro "Enlightenment Now", dizendo, inicialmente: "Como ele ousa dizer que os intelectuais odeiam o progresso?" e depois: "Como ele ousa afirmar que tem havido progresso?" 



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(Risos) 



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Para outros, a ideia de progresso simplesmente os deixa indiferentes. Salvar a vida de bilhões de pessoas, erradicar doenças, alimentar os famintos, ensinar crianças a ler? Tedioso. 



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Ao mesmo tempo, a resposta mais usual que recebi dos leitores foi gratidão. Gratidão por mudar a visão de mundo deles de um fatalismo dormente e impotente para algo mais construtivo, até mesmo heroico. 



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Acredito que as ideias do Iluminismo podem desencadear uma narrativa empolgante e espero que as pessoas com mais chama artística e poder de retórica do que eu possam falar melhor sobre elas e levá-las adiante. É algo parecido com isto. 



15:12


Nascemos em um mundo impiedoso, encarando chances adversas contra a ordem da vida e em risco constante de desmoronar. Fomos moldados por um processo cruelmente competitivo.  Somos feitos de vigas tortas, vulneráveis à ilusão, centrados em nós mesmos, e, às vezes, de uma estupidez impressionante. 



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Ainda assim a natureza humana tem sido abençoada por recursos que abrem espaço para uma espécie de redenção. Somos dotados do poder de combinar ideias recursivamente, de pensar sobre nossos pensamentos. Temos o instinto da linguagem, que nos permite compartilhar os frutos de nossa ingenuidade e experiência. Somos aprofundados pela capacidade de ter simpatia, pela pena, imaginação, compaixão, comiseração. Esses talentos encontraram formas de intensificar seu próprio poder. O escopo da linguagem foi ampliado pela palavra escrita, impressa e digital. Nosso círculo de simpatia tem se expandido pela história, jornalismo e narrativas visuais. E nossas débeis capacidades foram multiplicadas pelas normas e instituições da razão, curiosidade intelectual, debate aberto, ceticismo da autoridade e dogma e pelo ônus da prova para verificar ideias confrontando-as com a realidade. 



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À medida que a espiral da melhoria recursiva ganha ímpeto, nós colecionamos vitórias contra as forças que nos desencorajam, notadamente as partes mais obscuras da nossa natureza. Penetramos os mistérios do cosmos, inclusive a vida e a mente. Vivemos mais, sofremos menos, aprendemos mais, nos tornamos mais inteligentes e desfrutamos mais de pequenos prazeres e experiências enriquecedoras. Poucos de nós são mortos, assaltados, escravizados, explorados ou oprimidos por outros. A partir de poucos oásis, crescem os territórios com paz e prosperidade e um dia podem abarcar o mundo. Restam muito sofrimento e perigos enormes mas foram enunciadas ideias sobre como reduzi-los, e ainda existem infinitas outras para serem concebidas. 



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Nunca teremos um mundo perfeito, e seria perigoso buscar um. Mas não há limite para as melhorias que podemos alcançar se continuarmos a aplicar o conhecimento para aprimorar o crescimento humano. Essa história heroica não é só mais um mito. Mitos são ficção, mas essa é verdadeira. Verdadeira até onde sabemos, que é a única verdade que podemos ter. Conforme aprendemos mais, podemos mostrar quais partes da história permanecem verdadeiras e quais são falsas, segundo qualquer uma delas pode ser e qualquer uma pode se tornar. 



17:54


E essa história não pertence a qualquer tribo, mas a toda a humanidade, a qualquer criatura consciente, com o poder da razão e o desejo de persistir em seu ser, pois requer apenas a convicção de que a vida é melhor que a morte, a saúde é melhor que a doença, a abundância é melhor que a necessidade, a liberdade é melhor que a coerção, a felicidade é melhor que o sofrimento e o conhecimento é melhor que a ignorância e a superstição. 



18:22


Obrigado. 




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(Aplausos) 

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